Meditações de um Jovem Fugitivo e Perseguidor

“Foge, outrossim, das paixões da mocidade” (2 Tim 2:22). Por muito tempo ouvi este versículo e vi nele uma ordem para guardar minha pureza sexual e para fugir da imoralidade. Contudo, minha forma de aplicar esta passagem mudou após examinar melhor o contexto em que ela está inserida. Em minha primeira aula de teologia no seminário onde estudei o professor começou o semestre falando sobre como o homem de Deus deveria lidar com divergências teológicas. Ele nos exortou a não sermos contenciosos a partir dos versículos 24 a 26 da mesma passagem.

Durante sua preleção, não pude evitar que meus olhos e pensamentos se desviassem para o versículo 22. Então comecei a ver que, neste contexto, a ênfase de Paulo no uso da expressão “paixões da mocidade” não está sobre a questão da pureza sexual do jovem servo do Senhor, mas sim sobre a forma como ele, no papel de líder, lida com conflitos e divergências na igreja.

Do verso 14 ao 26, Paulo está lidado com questão do conflito teológico na igreja e instruindo o jovem Timóteo a se portar de uma maneira que honre a Deus nessas circunstâncias. Neste verso em particular, Paulo nos apresenta, por meio de imperativos, duas marcas que devem caracterizar o homem de Deus na sua forma de lidar com dissensões na igreja.

O HOMEM DE DEUS É UM FUGITIVO

Paulo dá a Timóteo e, por extensão, a nós líderes espirituais, uma ordem de fugir de nossas paixões juvenis. Em especial, Paulo tem em mente a paixão juvenil por contendas, teimosia, especulações e argumentações inúteis (vv. 14, 16, 23, 24).

Como jovem estudante de teologia sei bem o que é isso. Sempre gostei de discutir assuntos controversos. Nessas discussões quase nunca me deixei ser convencido por alguém e quase nunca dissuadi alguém da posição que já sustentava anteriormente. Uma coisa aprendi, depois de passar dias em uma teima no Facebook e ser repreendido por minha esposa: é impossível convencer alguém que não está disposto a ser convencido. Após examinar meu próprio coração, reconheci que muitas vezes estava tomado por orgulho, que me fazia usar de sarcasmo e zombaria para com meus oponentes e me impedia de reconhecer falhas no meu próprio raciocínio.

O fato de que Paulo nos ordena a fugir sugere a presença de perigos relacionados a estas paixões juvenis dos quais precisamos nos guardar. Há o perigo do orgulho, com o qual tive de lidar pessoalmente. Há tambem o perigo do desgaste pessoal e dos relacionamentos, especialmente quando estas discussões se dão de forma mais pessoal dentro da igreja local ao invés de ambientes virtuais. Por último, há o perigo de estas paixões juvenis permanecerem conosco mesmo quando não formos mais jovens. Fugir sugere afastamento. Se não fugirmos destas paixões enquanto somos jovens elas se incrustarão e se tornarão uma parte repugnante do nosso caráter.

O HOMEM DE DEUS É UM PERSEGUIDOR

A outra ordem que Paulo nos dá neste verso é a de perseguir certas virtudes. Não é suficiente que apenas fujamos da direção errada, é necessário que tomemos o caminho que honre ao Deus a quem servimos e que ponhamos toda a nossa diligência em seguir por ele.

A primeira virtude que devemos perseguir é a justiça. Esta palavra se refere à retidão de conduta de alguém que age de conformidade com o caráter de Deus, mesmo nas coisas que não são especificamente expressas por meio de preceitos e ordens. Buscar a justiça como virtude pessoal exige de nós que busquemos conhecer a Deus. Quanto mais O conhecermos poderemos agir de conformidade com aquilo que O agrada. O segundo item da lista de virtudes é a ; uma palavra que poderia ser melhor traduzida neste contexto como fidelidade, ou mesmo lealdade. Este é o traço de caráter, demonstrado por meio de ações, de alguém que é estável e digno de confiança. Fidelidade é uma virtude essencial para um relacionamento sadio com Deus e com os outros.

A terceira virtude que o homem de Deus deve perseguir é o amor. Este termo denota um tipo de amor ativo e sacrificial, não meramente sentimental. Trata-se de um amor que se evidencia na consideração calorosa e no interesse profundo pelo bem-estar do próximo, quem quer que este seja. Não se trata de um tipo de afeição que eu sinto por conta de quem meu próximo é, mas apesar de quem ele é. O último, mas não menos importante, item da lista de virtudes é a paz. O termo e o contexto não apontam para idéia de ausência de conflito, mas para uma busca por um relacionamento harmonioso com Deus e com os homens, especialmente com Cristãos genuínos, que “de coração puro, invocam o Senhor.” O conflito muitas vezes será inevitável, especialmente quando a verdade da Palavra de Deus estiver em jogo, mas “se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens” (Rom 12:18).

O fato de que Paulo nos ordena a perseguir tais virtudes sugere que possuí-las não é algo natural, mas algo que deve ser buscado com afinco, contra as inclinações de nossa carne pecaminosa. Além disso, o fato de que somos ordenados a perseguir tais qualidades “com os que, de coração puro, invocam o Senhor” no diz que seremos mais eficientes em nossa busca por construir um caráter que honra a Deus, como líderes designados por Ele, se nos cercamos de outros Cristãos genuínos que compartilham do mesmo alvo.

Que o Senhor nos ajude a nos purificarmos desses erros para que sejamos utensílios para honra, santificados e úteis ao nosso Possuidor, e desta forma estejamos preparados para toda boa obra (2 Tim 2:21).

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